Sinestesia:
quando os sentidos se cruzam de forma surpreendente
Sabia que há pessoas que ouvem cheiros e veem cores nos sons? Pode parecer difícil de imaginar, mas esta é a realidade para cerca de 4% da população mundial1. Chama-se sinestesia e é um fenómeno neurológico raro, no qual os sentidos são interpretados de forma distinta e simultânea.
Por isso, a forma de sentir e viver o mundo torna-se única, fazendo com que experiências comuns como ouvir música ganhem uma nova camada sensorial. Mas enquanto para muitos a vivência torna-se mais rica, outros veem-se limitados pelos fortes estímulos.
Em muitos casos, a audição tem um papel central neste fenómeno, fazendo com que determinados sons despertem outras sensações. Mas afinal, o que é a sinestesia? Continue a ler e entenda como se manifesta, as suas causas e de que forma pode influenciar a perceção sonora.
O que significa ter sinestesia?
Para a maioria das pessoas, o cérebro recebe um estímulo sonoro e este é processado e interpretado como tal. Nas pessoas com sinestesia, o processo de interpretação é diferente.
Quando a pessoa com sinestesia é exposta a um estímulo sonoro, o seu cérebro estabelece ligações entre diferentes sentidos. Isto quer dizer que ao invés de estimular, por exemplo, apenas a parte auditiva, vão ser desencadeadas duas ou mais sensações em simultâneo, resultando numa perceção adicional.
Entenda como o cérebro se comporta nestes casos:
Processamento cerebral
Causas de sinestesia
A ciência ainda procura evidências que expliquem integralmente a sinestesia. Contudo, existe uma conclusão comum de que esta condição neurológica é biológica, inata e pode ser hereditária2.
De uma perspetiva geral, a sua origem pode ser categorizada de 3 formas distintas:
• Sinestesia do desenvolvimento: resulta de um desenvolvimento atípico do próprio cérebro, acompanhando a pessoa ao longo da vida.1 Estudos mostram que a sinestesia é mais frequente em pessoas com Transtorno do Espetro do Autismo (TEA) com uma prevalência entre cerca de 17% e 19% no grupo.3
• Sinestesia adquirida: pode surgir no processo de recuperação de determinadas lesões cerebrais. Ao contrário da sinestesia de desenvolvimento, pode manifestar-se apenas por um período ou desaparecer gradualmente.1
• Sinestesia induzida: corresponde a episódios sinestéticos pontuais, desencadeados pelo consumo de substâncias alucinógenas.1
Como se manifesta a sinestesia no som?
A sinestesia pode ser uma verdadeira viagem dos sentidos, combinando diversas sensações e intensidades. E apesar de ainda não existir um consenso sobre o número exato de tipos de sinestesia, investigadores indicam cerca de 60 formas, enquanto outros apontam para a existência de pelo menos 150.1
De facto, esta pode manifestar-se de diversas maneiras. Enquanto algumas pessoas associam números a cores e outras sentem um determinado cheiro quando estão tristes, também existe uma percentagem da população com sinestesia associada à audição.
Um dos exemplos mais conhecidos acontece quando os sons desencadeiam uma resposta visual, como a representação de cores.1
Contudo, as manifestações auditivas associadas à sinestesia não se limitam a esta perceção, podendo igualmente representar estímulos físicos. Isto quer dizer que, quando ouvem determinado som, algumas pessoas sentem frio, calor, ou até a sensação de dor.1 A situação oposta também poderá ser uma realidade.
Por outro lado, existe a sinestesia que relaciona o som ao movimento.1 Nestes casos, um movimento pode desencadear uma perceção sonora ou o inverso.
Estas são apenas algumas das muitas perceções associadas ao som neste tipo de experiências. De facto, as combinações entre sentidos e a forma como se manifestam são extremamente diversificadas entre pessoas, tornando cada caso praticamente único.
A sinestesia é uma doença?
Ainda que envolva processos incomuns no cérebro, a sinestesia não é classificada como uma doença. Na verdade, esta resume-se a uma expressão de um funcionamento atípico do cérebro, podendo ser categorizada apenas como uma característica da pessoa.
Por ser uma parte tão presente de como as pessoas percecionam o mundo envolvente, de uma maneira geral, a sinestesia não provoca qualquer tipo de problema ou é causa de um incómodo. Em alguns casos, chega mesmo a contribuir para uma maior criatividade.
Contudo, podem existir situações em que o cruzamento dos sentidos pode manifestar-se com demasiada intensidade ou revelar-se desconfortável, apresentando consequências diretas na qualidade de vida da pessoa.
A sinestesia pode desaparecer?
Uma pessoa com sinestesia não pode simplesmente deixar de lidar com ela. Ao fazer parte do processamento de estímulos do cérebro é, de uma maneira geral, algo para a vida.
Contudo, ainda que não seja o cenário mais comum, esta pode gerar desconforto e ter impactos na saúde mental, favorecendo episódios de ansiedade ou de stress. Quando isso acontece, é crucial procurar um acompanhamento especializado, com o objetivo de desenvolver estratégias que devolvam mais estabilidade ao dia a dia.
Conclusão
Fontes:
- https://my.clevelandclinic.org/health/symptoms/24995-synesthesia
- https://www.apa.org/monitor/mar01/synesthesia
- https://www.nature.com/articles/srep41155